10.Mar.2011
A comunidade de leitores convida-o/a para esta noite com ...
 

O fio da navalha

Somerset Maugham

Primeira Parte


Nunca comecei a escrever um romance com tantos receios. Se lhe chamo romance é só por não saber o que mais lhe chamar. Tenho pouca história para contar e não termino nem com uma morte nem com um casamento. A morte põe fim a todas as coisas, sendo por isso a conclusão cabal para uma história, mas o casamento também a remata de forma muito conveniente, e os mais sofisticados costumam até desdenhar erradamente do que se convencionou designar por final feliz. É o instinto saudável das pessoas comuns que de as leva a convencer-se de que com um final feliz tudo o que precisa de ser dito fica dito. Quando um homem e uma mulher, depois de enfrentarem todas as vicissitudes possíveis e imagináveis, ficam enfim juntos, já cumpriram a sua função biológica e o interesse passa para a geração vindoura. Mas eu vou deixar o meu leitor na expectativa. Este livro consiste nas lembranças que guardo de um homem com quem privei de longe em longe e de quem não fazia a mínima ideia do que acontecia durante os períodos em que não o encontrava. Inventando, conseguiria, penso eu, preencher essas lacunas de forma plausível e tornar a minha narrativa mais coerente, mas não desejo fazê-lo. Quero apenas escrever sobre aquilo de que tenho conhecimento.

Há muitos anos escrevi um romance intitulado [...]